Por Fábio Vanzo & Renata Getz
28/10, 19h30min. O público era estranho: um shopping center; a organização, a cargo da Alpha FM e do próprio estabelecimento, mais ainda. O palco foi montado e… cadê o resto da banda? Eis que o show foi feito somente com Lobão (violão de 6, violão de 12 e viola de 10 cordas) e Edu (violão de 6 e bandolim), tendo como base o repertório do Acústico MTV. Não me recordo da ordem, mas, entre uma piadinha e outra (Lobão estava de ótimo humor) e cutucadas que atingiam da Marta Suplicy (versos d’A Queda) à parte do público – que ficava gritando o irritante bordão “Toca Raul” –, foram tocadas El Desdichado II, Essa Noite Não, Décadence Avec Elégance, Vou Te Levar, Por Tudo Que For, Noite E Dia, Me Chama, A Queda, A Vida É Doce, Canos Silenciosos, Rádio Blá e Corações Psicodélicos. Após o show, conseguimos uma exlusiva com o Grande Lobo, que você confere a seguir.
Como foi tocar hoje só você e o Edu, sem o resto da banda? Achei que as músicas mais pesadas não funcionariam, mas ficou tudo ótimo…
Eu e o Edu fomos a primeira célula do disco. Nós ficamos ensaiando três meses sozinhos, antes de o resto da banda se acoplar. Então a gente elaborou praticamente tudo.
Como foi tocar músicas que não são hits, como El Desdichado II, para um público de shopping, um público que não é necessariamente de fãs seus?
Eu ‘tô acostumado, cara; pra você ter uma idéia, em 1999, antes d’A Vida É Doce, eu não tinha dinheiro pra fazer o disco, então eu saí tocando com o violão essas músicas, o que me deu uma canja, de fazer assim, tanto show sozinho. Mas hoje nosso equipamento e nossos arranjos são muito mais sofisticados. El Desdichado II, por exemplo, eu vi pessoas cantando, e A Vida É Doce eu já considero um hit interno, A Queda também.. então eu ‘tô muito satisfeito… mas também foram anos de adestramento da platéia Quando eu não quero eu não toco e pronto. Hoje mesmo dei um certo esporro na platéia, lógico que por um certo folclore também [risos], já tem essa parada.
E o Canções Dentro Da Noite Escura, que é um disco com o qual você disse ter se decepcionado com as vendagens…
Ele é um disco natimorto… vendeu, até, pra um disco independente, bastante, umas 18.000 cópias, mas comparando, por exemplo, com A Vida É Doce…
Mas então não é um problema de excesso de expectativa da sua parte?
Não, não, ele morreu, é um disco natimorto. Não tocou, ninguém falou dele, não teve lançamento, ‘tá entendendo?…
Não é talvez porque ele seja o seu disco mais difícil de ser digerido? Pelo menos, pra mim, é seu disco mais difícil.
Não, não… olha, todo mundo sabe que eu acho ele meu melhor disco, a crítica especializada também… é um disco pra ser tocado inteiro, é uma ópera, embora você possa pinçar coisas absolutamente palatáveis como aquela com o Cachorro Grande (cantarola “não demora…”). Tem O Homem-Bomba, A Balada Do Inimigo… eu adoro A Vida É Doce, mas o Canções… é mais sofisticado, mais bem gravado. Mas é um páreo duro.
Bom, pra mim, mesmo com toda a irregularidade, meu preferido é o Nostalgia Da Modernidade.
É um disco esquizofrênico, fora do meu padrão. Eu fiz um disco mostrando como eu não sou. Eu gosto, até, é bem feito, mas não tem unidade, é feito pra provocar, tem um material muito denso, realmente, tem samba… mas eu ‘tava “fora da casinha”… eu ‘tava querendo me desconstruir como roqueiro e usei meu conhecimento musical pra isso, um disco esquizofrênico. Mas ele não tem a maturidade nem musical, nem de letras, d’A Vida É Doce… não da nem pra começar. Um que se aproxima d’A Vida É Doce é o Noite. Esses dois e o Canções… são os melhores. Perto desses, o Nostalgia… não ‘dá nem ‘pra começar. Tem A Queda, mas é um disco careta, e foi no começo da era do ProTools, então ele foi mal utilizado, houve uns “cortes” que tiraram um pouco do suíngue, foi um problema sério. Fora o problema mesmo de ser um disco extemporâneo…
Mas você costumava dizer que ele era a primeira parte da sua trilogia “adulta”, junto com o Noite e A Vida É Doce…
Não, ele era uma trilogia, eu costumava falar isso, mas como vieram os outros, foi como se uma lei da gravidade atraísse os três mais recentes. Tanto que o repertório é praticamente feito em cima deles. Tem coisas no Nostalgia… que não dá pra tocar, são até ingênuas, tipo Mal De Amor [cantarola, com suingue sarcástico – “Pra começar...”], aquela Aurora, vou parecer um “universiotário”. E o que está lá, esse negócio “de raiz”, de samba, é tudo que eu não quero (enfático) na minha carreira agora.
E a música do Vímana, como ela apareceu no disco?
Foi um prazer porque, na verdade, essa música foi muito emblemática, foi justamente na época em que uma banda de rock progressivo, aliás, por causa do Lulu, que foi até um grande DJ da época, o Big Boy…
Vímana, que, aliás, terminou por sua causa, dizem…
[Tranqüilo] Não, não… não é verdade. Eu cagüetei ele pro Patrick Moraz (ex-tecladista do Yes), e ele foi expulso da banda – isso ele não fala. Ele diz que eu roubei a mulher do cara, isso não é verdade. Nós ficamos ensaiando oito meses com o Patrick e eu só tive um relacionamento com a mulher dele quando a banda já havia terminado. E a banda terminou por um motivo singelo, simples: ela era um megaprojeto multimilionário pra competir com o Yes, um puta esquema milionário com o Peter Grant, empresário do Led Zeppelin, ficamos ensaiando oito meses na maior mordomia. O que aconteceu foi que gravaríamos um disco no Rio, depois iríamos pra Genebra, saindo em turnê mundial. Lá ele ia anunciar sua saída do Yes – pra entrar na nossa banda (risos). Só que como ele não era do Brasil, precisava, de tempos em tempos, sair pra renovar o visto; aí o que aconteceu foi o seguinte: ele foi até a Inglaterra justamente na semana em que estourou o punk inglês, e veio com a mala cheia de discos dos Pistols, do Elvis Costello, do Buzzcoks e do Clash, passadíssimo. E a gente com aquela estampa de roqueiro progressivo… a gente se achou totalmente up-to-date… aí então, eu peguei aquela onda, o Lulu pegou, o Ritchie pegou… aí, um pouco antes de isso acontecer com o Patrick, o Lulu, como eu ‘tava te falando, foi até o Big Boy e ele quis jogar um jabá homérico no Lulu, falando que aquilo nunca ia tocar no rádio, e o Lulu falava “chega de ser marginal!”. Mas a verdade é que a gente ganhava muito mais dinheiro fazendo shows: temporada de um mês no Teatro Teresa Raquel, capacidade pra 800 pessoas, tocando de quarta a domingo. Depois fazia a mesma coisa no MAM. Tinha muito volume de show, mas não tocava no rádio, lá a gente passava despercebido. Quando a gente quis fazer uma coisa, a gente fez o compacto com essa música (O Mistério) e Zebra. Mas essa foi antes do compacto, tanto que eu mostrei pro Lulu e, a princípio, ele nem se lembrava dela.
E como é sua relação com pessoal do Vímana?
[Assessor pede o fim da entrevista. Sinalizamos pedindo mais uns minutos]
É mais ou menos. Ontem o [Luiz Paulo] Simas me mandou um e-mail, o Ritchie às vezes eu encontro, o Lulu… o Luiz Paulo voltou de Nova York agora… a gente não tem tanto contato, mas eu os considero como meus irmãos.
Você faria algo de novo com eles? Mesmo brincadeira, assim, de curtição, uma jam session, um showzinho…?
Não, não tem por que, justamente por ser uma coisa pela qual tenho o maior respeito, que pertence àquele contexto, e que não tem motivo pra retornar. O Luiz Paulo agora é professor de música popular brasileira em Nova York, é uma sumidade, toca bossa nova ao piano no Carneggie Hall, nada a ver com aquilo. O Fernando [Gama] ‘tá com um projeto instrumental… ‘tá cada um na sua onda. Então não tem porque reativar uma banda que na verdade nem chegou acontecer, e que só ficou famosa porque os ex-integrantes tiveram êxito em suas carreiras-solo. Foi só uma banda embrionária do que seria a gente.
E qual é a SUA onda agora? Vai continuar curtindo o acústico ou já…?
Não, não [interrompendo], esses shows já são “terminais”.
Você já tem alguma música pronta?
Estou com um conceito de pegar todas as minhas músicas que não foram gravadas, e tocá-las, coisas d’A Vida É Doce, do Cena De Cinema, coisas que nunca foram tocadas ao vivo.
E há previsão do relançamento dos seus discos fora de catálogo?
Na verdade, concomitante ao contrato desse disco acústico, foi feito um contrato de relançamento de todos os meus discos pelas três gravadoras em que estive – Sony, Universal e EMI – e fazer uma caixa, incluindo outtakes do Vida Bandida, por exemplo, temos um monte de outtakes, tem uma música inédita que eu gravei em 2004 com o Cachorro Grande e achei outro dia lá em casa, num gravador, aí é só masterizar… tem esse monte de novidades. Então, como essa correria do acústico eu não tive tempo de fazer nenhuma música nova, por isso precisei criar um conceito para um show elétrico, algo que não seja gratuito, que tenha uma função sonora e artística, um estilo.
Valeu Lobão, muito obrigado, a equipe d’A Doze Mãos agradece.
Pô, valeu, eu que agradeço!


6 comments
Comments feed for this article
novembro 5, 2008 às 6:24 pm
Carolina Molina
Sensacional!!!!
novembro 5, 2008 às 7:50 pm
rapha
parabens pela entrevista tio vanzo!
show de bola!!
abraçao
novembro 5, 2008 às 9:01 pm
adozemaos
Lendo isso, revivi cada segundo daqueles 20 minutos q passei em pé, segurando a câmera [e tentando proteger com o corpo do barulho infernal] e daquela uma hora q passamos sentados na 1a fila [tá, o lugar era tosco] e da espera, e do elevador, e até o final, pq foi um dia maravilhoso!
Obrigada pelos créditos q não mereço. É tudo seu.
Já falei q sou sua fã?
Beijo,
Renata
novembro 5, 2008 às 9:33 pm
Regiane
Uauuu Vanzoooo, ficou fodaaaa!
Ele falou bastante, mergulhou nos assuntos, parece ter sido bem descontraida a entrevista!!
Parabéns ^.^
Bjoo
novembro 6, 2008 às 6:44 am
Robs
GENIAL!
Arrasaram pessoas, ficou muito legal, especialmente por ser uma conversa e não uma entrevista quadradona.
Parabéns procÊs!
beijaum
novembro 10, 2008 às 10:05 pm
Marcelo Renato
Valeu lobão, gostei muito da entrevista, um forte abraço!!!
Marcelo Renato